O Cheiro do Ralo

É possível comprar uma bunda? Até onde vão os princípios do homem? É possível que alguém fique obcecado por um cheiro fétido e que passe a associar o mesmo a ocorrências em sua vida? Essas são apenas algumas das questões abordadas pelo excelente filme de Heitor Dhalia.

 

O filme conta a história de um neurótico negociante de objetos, dono de uma casa de penhores, que fica obcecado por uma bunda e resolve tê-la para si, através de uma oferta de compra. Esse fato desencadeia outras psicoses, como a dependência progressiva de um cheiro exalado por um ralo do banheiro do seu trabalho, a necessidade de sentir prazer pelas aflições das pessoas, através de humilhações e ironias proporcionadas a elas. O personagem central da trama é Lourenço, um sujeito solitário e neurótico, que acaba confundindo o real com suas necessidades psicóticas. Encara tudo e todos como objetos em que ele pode agregar valores. Tem a necessidade de estar sempre no poder, de estar no controle da situação, o que é justificado pela essência do seu trabalho: a barganha. Lourenço é uma pessoa fria, franca e sem afetos declarados. Sua falta de perspectiva não o incomoda, pois sempre acredita ter tudo sob controle. A partir do momento que ele se depara com a segunda personagem da história, a bunda de uma garçonete, suas atitudes tornam-se cada vez mais intensas e um desejo de propriedade faz-se sentir em seus pensamentos, o que o deixa mais vacilante em relação aos seus sentimentos ignorados.

 

À sua volta, tudo recebe influências de suas atitudes. Sua noiva, inconformada com o cancelamento do seu casamento por causa de uma resposta completamente insuspeitável para ela, entra em colapso. Seu segurança, um braço-direito em seu trabalho, aos poucos vai percebendo as disfunções do seu chefe, mas se contenta em fechar os olhos com o dinheiro por ele oferecido, até o momento que é descartado como um cachorrinho mal amado. Seus clientes sofrem cada vez que se deparam com um Lourenço instável, sendo humilhados e encarados como objetos. Um dos seus clientes mais recorrentes na trama, a drogada, tem papel chave na história, pois mostra exatamente o contrário que Lourenço sempre pensou: Ele nunca esteve no controle. Era um solitário, se não fossem seus clientes, não estaria ali, sentado atrás daquela mesa, oferecendo os menores preços para os produtos que chegam a sua porta. É interessante notar também que Lourenço, por mais que se mostre perturbado com o cheiro do ralo, não quer se livrar dele, pois recusa-se a pagar 300 reais pelo concerto, mas paga 400 reais, sem pestanejar, por um olho de vidro para satisfazer seus desejos esquizofrênicos1.

O filme aborda muitos temas interessantes de uma sociedade moderna sem escrúpulos. Talvez o tema mais pulsante seja o vício. O vício que traz a cliente drogada em busca de dinheiro, o vício pelo poder, que torna Lourenço tão mesquinho e desequilibrado e, provavelmente o vício mais estranho: o cheiro do ralo. Fica claro a posição do autor em relação aos vícios em geral ao mostrar o processo de virtualização da vida dos viciados, da degeneração gradativa de suas vidas por causa de seus descompassos de comportamento, tanto através da cliente drogada quanto pelo próprio Lourenço.

 

Existe uma relação intrínseca entre a solidão do personagem central e seu cinismo perante as pessoas que o procuram ou que estão de alguma forma em contato com ele. Ele não enxerga ninguém, como ser humano a sua frente, por isso todos os desprezam. Mas ele não quer saber de nada disso, pois sempre crê que está no controle, e isso é o que importa pra ele. O autor usa Lourenço como simbolismo da visão dos homens em relação às mulheres e ao relacionamento. A diferença é que Lourenço fala exatamente o que pensa, causando impacto em quem houve e até repúdio, mas é exatamente esse romantismo disfarçado que muitos homens da sociedade brasileira usam. O homem, diferente da mulher, é mais objetivo, mas carnal e menos sensitivos. Para eles, pouco importa o modo como falam ou como agem. Entre homens, eles são claros e francos, entre mulheres a artimanha do romantismo disfarçado surge como arma de conquista. Para Lourenço, não existe diferença entre seus relacionamentos com homens e mulheres. Ele fala exatamente o que pensa para qualquer um. E esse romantismo disfarçado, encarado contraditoriamente por Lourenço, me parece ser um outro tema explorado pelo autor.

 

Um momento que considero chave para a completa construção do perfil do personagem Lourenço é a cena em que ele senta em um sofá, junto com o seu segurança e começa a lhe explicar que o homem criou o conforto. Daí o segurança contradiz que o homem também criou coisas ruins, como o lixo. Nisso, Lourenço mostra exatamente o que ele pensa da vida, ao responder: “O lixo é troco, que é para ocupar esse bando de desocupados que não está nem aí para o conforto”. Como a marca do filme é ser uma obra politicamente incorreta, esta construção do personagem, junto com as suas demais atitudes mostra a tendência do autor em defender exatamente o contrário do pensamento de Lourenço, como se esse personagem fosse uma antítese do que se espera de uma sociedade moderna.

Podemos assimilar a linguagem fílmica utilizada na obra de Dhalia a partir de alguns pontos bem interessantes:

  1. Necessidade de mostrar diversas vezes o caminho que Lourenço faz entre o bar-trabalho, trabalho-bar, casa-trabalho e trabalho-casa, através de uma câmera fixa com uma grande parede ao fundo e o movimento do personagem como única cinética do plano, remetendo quadros de revistas em quadrinhos, para destacar o aspecto neurótico do personagem e sua falta de perspectiva.

  2. Uso de imagens aceleradas e confusas em uma cena de pertubação mental do personagem central, enfatizando exatamente esse descontrole mental, junto com as suas divagações racionais-esquizofrêmicas.

  3. Em cena em que Lourenço espanca insanamente um cliente, a câmera faz um movimento de aproximação e distanciamento, em vai-e-vêm do agressor, junto com uma trilha sonora eletrizante e, de certo modo difusa, onde destaca a reação explosiva e psicótica do personagem através de uma analogia à adrenalina que pulsa em suas veias.

  4. Tendência ao uso de cores douradas e pastéis no cenário, figurino e iluminação, associada ao retrô, onde não se tem com precisão uma data em que se passa a história e a falta de perspectiva do personagem, sua frieza e materialismo que cerceam a sua personalidade.

 

Portanto, um filme que adotou a estratégia de guerrilha, por contar com pouca verba para sua produção atingir um nível de qualidade através de recursos simplistas e sem se render à clichês do nosso cinema e às exigências comerciais é uma vitória e tanto, digno de um reflorescimento das idéias do cinema novo, mas desta vez adaptado para a nova sociedade e inserido em uma nova realidade brasileira. Segundo Selton Mello, não só a escrotidão, a bizarrice, mas a solidão que tornou o filme palpável. Ele podia ser apenas pop e divertido, mas é muito Lado Negro, triste e solitário. Ele (Lourenço) é um fodido que mora num buraco e usa o poder para ser alguma porra na vida, mas na verdade ele é um bosta”2.

1 - Idéia muito bem colocada por Luiz Fernando Gallego, no artigo Ralo e Raso do site Críticos (http://www.criticos.com.br/new/artigos/critica_interna.asp?artigo=1204)

2 – Trecho da entrevista de Selton Mello à revista SET do mês de março de 2007, páginas 34 e 35.

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