Baixio das Bestas

Baixio das bestas é, sem dúvida, um filme visceral. Impactante em suas imagens, socialmente crítico em sua trama e desconfortável para o público. Com uma estética despadronizada e, ao meu ver, bastante rica linguisticamente, Cláudio Assis e sua equipe tão um toque estilizado em um filme forte.

A trama resume-se na história de uma menina explorada sexualmente pelo avô, em uma cidadezinha do interior de Pernambuco, que também mostra um grupo de jovens de classe média que vivem na orgia, no mundo das drogas, aproveitando-se violentamente de prostitutas etc. Assis retrata a miséria de pessoas desprovidas de moral e esquecidas em uma cidade onde não há leis. E a história não é ficcional. É a realidade de nosso país, a violência e a ignorância, vistas através da lente de um diretor brasileiro.

Os temas abordados são de denúncia social. A realidade escondida do interior do nordeste, que ainda mantém o saudosismo da era da autoridade e do coronelismo de outrora, encarnada pelos mais velhos. No filme este elemento é representado pelo avô de Auxiliadora, o seu Heitor. Sem dúvida, a violência à mulher é o tema mais evidente na história.

A necessidade de se fazer algo bastante real, onde beira o excesso, nas cenas de sexo e abusos às mulheres, seja através da violência física como ao tratamento por cabresto, torna o tema de denúncia ofuscado pelas fálicas imagens e sua cenografia embaraçosa para muitos.

Temos também a volta ao tema rural, o sertão, o nordeste. Assim como foi explorado pelo cinema novo, o sertão é destacado e nele foram feitos filmes alegóricos sobre os problemas do povo que lá vivem, onde se encaixa o batismo de estética da fome. Cláudio Assis retorna ao tema, mas desta vez aborda novos problemas no sertão moderno. Não que a fome não mais exista por lá, mas foi uma questão de direcionamento do cineasta apresentar novos temas, como a violência à mulher, exploração infantil, terras sem leis, prostituição etc.

Um destaque especial vai para a estética do filme. Podemos notar que existe uma predominância de planos fixos, com a câmera supostamente em tripé.

A pouca exploração do campo e contracampo. Quase tudo é resolvido em imagens paradas, através do uso frequente de ângulos aéreos, diagonais e traseiros, explorando sempre a profundidade de campo da cena. Diálogos são travados em uma mesma imagem (dispensando o campo contracampo).

Um questionamento que posso fazer é o uso de sombras para representar a violência sexual que sobre a prostituta pelos três jovens que se drogam. Por quê o cineasta resolve “esconder” a violência na tela quando exibe imagens durante o tempo todo de coisas similares? Por quê justamente nesta cena temos esta representação? Ele não queria chocar o espectador? E as cenas anteriores? Já não chocavam por si só?

É inegável que o diretor Cláudio Assis tenha um estilo bem peculiar de se fazer filmes. Não é questão de moralismo afirmar que Baixio das bestas exagera na representação dos temas que o cineasta deseja abordar, onde evidencia que as imagens chocantes são mais importantes que a narrativa propriamente dita.

Devemos refletir se a forma como essas denúncias são trabalhadas realmente atingem de forma racional os espectares ou se estão simplesmente quebrando barreiras psicológicas a fim de que essas imagens impactantes não tenham mais impacto algum em nossas impressões humanas, levando-nos a achar cada vez mais que estas coisas são normais. Se for a segunda opção, isso é preocupante e merece ser revisto, pois filmes como estes podem estar contribuindo para que desenvolvamos o sentimento de máquina, ou seja, nada nos abala, pois não sabemos mais sentir.

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