Zentropa

Este artigo visa estabelecer uma relação entre a linguagem fílmica de EUROPA com alguns elementos do movimento alemão que ficou conhecido como expressionismo, destacando a influência desta escola cinematográfica no processo de realização do filme a ser estudado.

O expressionismo alemão é uma vanguarda artística de forte crítica social que surgiu entre o final do século XIX e o começo do XX. A época foi marcada pelo desamparo e o medo da sociedade que passara, recentemente, pelo processo de unificação da Alemanha, mas que ainda era bastante atrasada industrialmente. Não só ocorriam mudanças políticas e econômicas, mas também intelectuais e culturais: foram rompidas as crenças religiosas – principalmente a católica – e a existência de um Deus já não mais era incontestável, aumentando ainda mais os questionamentos a cerca dos mistérios da vida e da morte. O homem agora era responsável por si próprio e por seu futuro. A vida após a morte já não era certa. Foram tais incertezas que resultaram no medo, na angústia, na solidão, nos sentimentos mais sombrios que uma sociedade inteira poderia sentir.

EUROPA conta a história de Leo Kessler, americano descendente de alemães, que chega à Alemanha do pós-guerra para assumir cargo em uma linha férrea e acaba se apaixonando pela filha de um industrial, que mantém ligações perigosas com terroristas.

A partir deste argumento, não podemos imaginar um filme que receba influência do movimento expressionista, dadas as características do mesmo. No entanto, a forma e a intensidade como o diretor Lars Von Trier nos conta a história mostra exatamente o oposto: um filme claramente marcado pelo movimento alemão do início do século passado.

 

Já na sequência inicial, temos uma indução ao transe. Uma voz em off nos orienta a penetrar profundamente em nossa mente e mergulhar em algo que pode ser um lindo sonho ou um terrível pesadelo. Somente o desenrolar da história nos provaria do que se trata. É como se o diretor estivesse dando um recado aos espectadores antes do início do filme: desliguem-se da realidade e mergulhem nas profundezas da sua mente. Esta idéia de explorar com bastante intensidade as emoções humanas mais ocultas, de evidenciar o terror psicológico de algo que está por vir, marca típica do expressionismo, é delineado por esta sessão hipnótica que nos acompanha durante todo o filme.

 

Por conseguinte, quando entramos de fato na história, observamos um ambiente pesado, “dark”, de cores monocromáticas, em uma sociedade marcada pelo ódio, ríspidez e ressentimento de um governo nazista que outrora fora derrotado pelas tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial. Logo chegamos a conclusão que não se trata de um maravilhoso sonho.

 

O narrador em off logo nos informa que o ano que se passa a história de Leo Kessler é o de 1945, exatamente no pós-guerra, onde todos os sentimentos mais terríveis assolam o país que saiu derrotado na guerra.

 

Conforme é sabido, a sombra é um dos elementos estéticos mais importantes do movimento expressionista. Nos filmes que englobam o movimento, ela é usada quase como um personagem independente, exercendo forte poder no trabalho de projetar as emoções através das imagens, além do inverso, é claro, que consiste no despertar das emoções do próprio espectador. No filme EUROPA, a sombra pode não ter desempenhado de forma tão complexa este papel, mas estava presente de forma bastante intensa nas cenas. Ela não se definiu como um personagem independente, como em NOSFERATU, e talvez não tivesse a intenção de despertar fortes e terríveis emoções no espectador, mas foi de forma simples, um elemento de realce estético, que em conjuntura com o ambiente escuro e pesado do filme desempenhou de forma muito rica um contorno visual e uma certa obscuridade às cenas, indo de pronto concorde com os filmes Noir.

 

 

O expressionista não vê a realidade como fotografia da natureza, mas sim a percebe através de “visões” que, ainda que vagas e indistintas, desvelam o absoluto que está por trás da realidade sensível, o que independe de relações acidentais.”

Alfredo Rubinato

 

 

Algo bastante curioso foi a denominação dada aos traidores alemães, que trabalhavam ao que parece como espiões dos aliados. A denominação em questão é “Werwolf”, ou Lobisomem, em português. Por mais que isso não seja um elemento ficcional, criado para ilustrar o filme, é curioso como a influência dos pesadelos e alucinações, das figuras bizarras e carregadas de desejos mórbidos propagadas pelo expressionismo alemão foi marcante na sociedade alemã.

 

Como figura de ligação ao movimento, o termo Lobisomem não poderia ser mais significativo ao filme. Ele resgata exatamente o temor pelo desconhecido, a figura do bizarro e do imaginário das mentes doentias que sucumbiam aos problemas sociais de uma Alemanha em decomposição política, moral e social.

 

Podemos considerar uma homenagem do diretor Trier a um dos principais filmes do expressionismo, METRÓPOLIS, as cenas onde vemos dezenas de funcionários puxando a Zentropa, em sua primeira cena, através de movimentos mecânicos e repetitivos, sincronizados, exatamente como nas cenas da fábrica de METRÓPOLIS. Outras cenas que remetem a este filme são as que aparecem grupos de pessoas carecas, mas essas não são necessariamente homenagens, pois elas tem um sentido bem específico em retratar os judeus que eram aprisionados e levados a campos de concentração para trabalhos forçados.

 

 

A imagem do mundo se reflete no expressionista em sua pureza primitiva, a

realidade é subjetiva e existe apenas em nós. O expressionismo significa um

subjetivismo levado a extremos, a afirmação de um Eu totalitário e absoluto, que

forja o mundo a sua imagem e semelhança.”

Alfredo Rubinato

 

De forma mais sutil, EUROPA também aborda o tema insanidade, um dos assuntos favoritos de filmes expressionistas. Sutil porque os elementos que compõem este tema agem como complementares na trama, reforçando sempre algum outro ponto, seja na construção do perfil emocional do personagem principal, seja no reforço à crítica social que o diretor deseja fazer.

 

Um dos momentos que observamos o tema insanidade tomar conta da trama é quando um garoto, que traz consigo balas e um revólver, dispara tiros na pessoa que o acompanha, o presidente da Câmara. Logo depois chega o pessoal da inspeção de fronteira e fuzila o garoto e o seu provável irmão e cúmplice. Que o garoto fez era premeditado, pois ele frequentemente olhava para o relógio. Daí a insanidade. Uma criança planejando um assassinato do presidente da Câmara. Era um “werwolf”. E depois encerramento do ciclo de frieza e loucura: o fuzilamento da criança pelos militares.

 

Outro momento que demonstra a insanidade é o idealismo terrorista dos “werwolfs” é através, principalmente da Catharina, quando planeja-se explodir o trem Zantropa, onde o detonador seria o próprio Kessler. Daí temos uma intensificação do terror psicológico vivido por Kessler. Chegamos ao clímax da trama e estamos perto do seu desfecho. Portanto, a insanidade sempre está sendo trabalhada como fator complementar, como neste caso, que servia para elevar a tensão psicológica do filme.

IV) CONCLUSÃO

 

O expressionismo alemão foi uma vanguarda de extrema importância na evolução da sociedade alemã. Não apenas porque mostrou de forma explícita a agonia, a angústia e a falta de esperança a que estava submetida, mas porque superou o comum com uma linguagem própria, permitindo a comunicação das emoções e a reflexão da imagem interna da sociedade alemã e pela qual se fez possível a recriação de valores.

 

Neste sentido, EUROPA trás no início deste novo século, elementos de uma sociedade alemã que não mas existe. Neste novo cenário, a Alemanha está estabilizada politica e economicamente, a sociedade encontra paz e harmonia entre seus semelhantes, mas algo aterroriza profundamente esta sociedade: o terrorismo. É este medo, esta agonia que Trier tenta transmitir através de sua mensagem adaptada para esta nova realidade. Evocando o passado para mostrar o presente.

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