Era uma vez

“Era uma vez…” traz um romance platônico entre dois jovens. Um é pobre, morador da comunidade do Cantagalo e vendedor de cachorros-quentes. A outra é rica e vive em um bem dotado apartamento na Vieira Souto. Acrescente a esta trama o tráfico, a vida no morro, violência, vingança, integridade, corrupção e injustiça. Você terá o tempero perfeito para um deleite magnífico dentro da sala de cinema.

Tive o privilégio de assistir ao filme antes de chegar aos cinemas e pude ressaltar alguns pontos deste maravilhoso longa de Breno Silveira.

1°) As atuações de Thiago Martins (Dé), Rocco Pitanga (Carlão) e de Cyria Coentro (Bernadete, a mãe do Dé), são muito boas e merecem destaque. Um detalhe importante é que o Thiago Martins é morador do Cantagalo e foi descoberto pela “Nós do morro”;

2°) A trilha sonora do filme e a edição de som são muito boas, quebrando a imagem que o cinema brasileiro tem de obter fraco desempenho neste quesito;

3°) O roteiro é fantástico. A capacidade de se contar estórias e prender a atenção do espectador, seja ou não com tensão e drama é espantoso no diretor, que já provou do que é capaz em seu primeiro longa, o “Dois filhos de Francisco”, que levou 5 milhões às salas de cinema e marcou época na história do cinema brasileiro. Os diálogos são muito adequados ao ambiente vivido pelos dois nesta cidade partida;

4°) Um objeto de cena que é muito importante para se entender, conceitualmente falando, o que acontece na sociedade carioca atualmente é o livro “Cidade partida” de Zuenir Ventura, que é lido pela jovem Nina e depois, por influência dela, pelo Dé. Uma pista para os mais atentos;

5°) A carga dramática, a exemplo de “Dois filhos de Francisco” é muito intensa, mas sem exageros.

 Era uma vez

No geral, eu adorei o filme e daria 10 pra ele se não fosse pelo final, que não muito me agradou, mas o próprio Breno explica a sua escolha deste final devido a sua intenção de fazer um final para chocar o público, para que este desse atenção as falas finais do próprio Thiago, já fora do papel, que realmente é bastante impactante.

Tenho certeza que vários blogs e outros meios de comunicação farão uma ponte entre o filme “Tropa de Elite” e o “Era uma vez…”. Principalmente se o filme tornar-se popular como o filme do Padilha. Eu não iria tão fundo nestas comparações, pois a trama é bastante diferente, apesar de serem utilizados elementos também pertencentes ao universo de “Tropa de Elite”, acredito que cada um desses longas tenha o seu charme especial e irá, da mesma forma, cativar o público.

Outra coisa que poderá ser comentada é que o diretor aproveitou a onda do “Cidade de Deus”, “Tropa” e Cia para escrever um filme parecido e ganhar a simpatia do público. Isso, se dito, será bobagem pois segundo o próprio Breno, em entrevista coletiva dada no dia 10 de julho de 2008, a sua vontade de fazer um filme que contasse a história de Dé já era antiga. Desde o seu primeiro trabalho no cinema, onde foi fotógrafo de um filme de Eduardo Coutinho (Santa Marta – Duas semanas no morro - 1987), Breno já sinalizava para um filme neste aspecto. O roteiro final do “Era uma vez…” ficou pronto em 1999, mas ninguém queria fazer o filme. Somente após os sucessos dos filmes já citados, foi que Breno conseguiu apoio para esta realização.

Uma de suas preocupações é de fazer filmes que sejam acessíveis ao público.

– Dou uma importância enorme para o roteiro. Acho que ele é a peça mais importante para os meus filmes. Quando o roteiro não é bom, compromete o entendimento do público, tornando um filme sem sentido para este. Disse Breno.

Com relação a escolha dos atores, Breno disse que prefere trabalhar com atores menos conhecidos.

- Eu procuro um ator que tenha alma no filme.

Ao ser perguntado de um futuro projeto, ele não entrou em detalhes, mais comentou sobre a possibilidade de realizar um filme sobre o Gonzaga (pai de Gonzaginha). Mas isso, se acontecer, será por volta de 2010.

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