Roberto Cassano é jornalista, blogueiro (www.cassano.com.br) e diretor de criação digital na Selulloid AG (www.selulloid.com)

Osso e o Macaco - 2001

 

Homens pré-históricos olham meio bolados para um bloco negro. Se cutucam. Esbarram. Se estranham. A porrada estanca. Um deles pega um enorme pedaço de osso. Percebe que aquilo o tornou mais forte. Mete a porrada nos outros. Vence a luta. Em comemoração, joga o osso pro alto. O osso sobe, e subimos junto, até o espaço, onde o osso se torna uma estação espacial. O mesmo homem, as mesmas ferramentas. A mesma cabeça de jegue pronta para fazer besteiras.

 

É engraçado como até hoje a gente acompanhe as feiras tecnológicas esperando aquilo que nos trará a redenção cibernética ou nossa terrível destruição. No campo do audiovisual, para quem acompanha o mercado do alambrado, me parece estarmos nessa situação, onde os suportes voltam ao centro de um debate onde nunca deveriam ser os protagonistas. O que tenho lido/visto/ouvido? Da inútil batalha HD-DVD x Blu-Ray. Que a gente poderá pedir pizza ou comprar a blusa da Regina Duarte com a TV digital. E que vamos ter que gastar uma grana no decodificador para que nossa experiência com “Zorra Total” seja transformada. Que a internet está destruindo a indústria do DVD.

 

É exatamente a mesma inócua discussão sobre o mercado de música. Parece que ainda tem gente jurando de pé junto que a indústria (ou a arte) é sobre hardware: discos, leitores, projetores. É tudo ferramenta. Osso. Que pode ser usado tanto para mandar o homem pro espaço como para esmurrar o quengo de um neanderthal. Pouco se dedica a estudar como criar/adaptar as obras para cada novo suporte. A famosa “quarta tela” do celular, por exemplo. Está cada vez mais popular e o que de conteúdo significativo temos para ela? Pouco.

 

Porque não dá para ver “2001″ numa tela de iPhone. E periga de a bateria acabar antes de “E o Vento Levou”. Como é essa mídia? Essa linguagem? Os notáveis esforços como o da Mobilefest ainda estão presos ao campo da experimentação. Coisas como as “Histórias contadas por coelhos em 30 segundos” deviam estar nas lojas, não apenas uma brincadeira da internet. Mas o mais bacana, o mais inerente ao ser humano (além cabeça de jegue pronta para fazer besteiras), ainda está em segundo plano: como contar histórias com os novos ossos que a indústria nos apresenta? Como contar histórias no celular? Numa sala digital de cinema? No iPhone? No Youtube? Muito se tem feito, mas não dá para dizer que já tenhamos uma linguagem. Alguma sugestão?

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