Mateus Nagime é brasileiro, estudante de cinema da Universidade Federal Fluminense, colunista do jornal Folha da Manhã (http://www.fmanha.com.br/)  e blogueiro. Seu blog é o Cinema Mon Amour

 

CDs

 

A internet foi uma grande revolução em vários aspectos de nossa sociedade. Chegou-se cogitar o fim dos jornais (até datas já foram previstas) e das revistas, enquanto a indústria cinematográfica e musical experimenta a cada ano quedas em suas vendas. Enquanto no primeiro caso a internet veio como um complemento que acabou afastando os leitores do principal produto que era o material impresso, no caso dos filmes e discos a internet acabou surgindo como uma rival indesejada.

Não que o comércio ilegal não existisse antes, mas nunca foi tão ameaçadora à indústria, como é atualmente. As companhias já acumulam prejuízos, e ao mesmo tempo em que tentam implementar medidas para frear a recessão, não parecem ter encontrado o verdadeiro problema, como se percebe nas involuntariamente cômicas propagandas anti-pirataria exibidas nos cinemas, acusando o espectador de estar financiando o tráfico ou destruindo vidas, sem abordar de uma forma minimamente adulta a questão.

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Hoje a coisa mais fácil é fazer cópias de dvds e cds, e naturalmente vendê-las por preços bem mais baratos. Neste contexto, a internet acaba sendo uma faca de dois gumes no que diz no que diz respeito a pirataria. Ao mesmo tempo em que propaga o material por toda a rede e deixa ele disponível para milhões de pessoas (o que pode inclusive é favorável para artistas iniciantes), também impede um lucro indevido por parte de outras pessoas que não tiveram nada a ver com a criação artística.

No campo musical, a internet já foi descoberta por muitos artistas como uma forma de divulgar o material, conquistando assim fãs e contratos e a idéia de que a circulação não-oficial faz despencar os lucros está sendo cada vez mais enterrada. Dois exemplos claros são o novo disco do Radiohead “In |Rainbows”, que foi lançado pela própria banda na internet e depois alcançou o primeiro lugar nas paradas ao chegar nas lojas, e o filme “Tropa de Elite” que ganhou muito mais repercussão (e lucro) após ser pirateado.

Porém entre os verdadeiros cinéfilos, a propagação de filmes pela internet apenas pode dar prejuízo aos filmes ruins. O estudante de arquitetura Haroldo Dantas (nome fictício), 24 anos, já possui mais de 700 filmes em seu acervo e apenas 100 deles são DVDs originais. Mas engana-se quem acha que ele passa por verdadeiros perrengues para assistir aos filmes que consegue pela internet, ou que a qualidade é ruim.

— Já faz três anos em que não vou na locadora, mas não deixo de ir ao cinema. A maioria dos filmes que baixo não pagaria ingresso para vê-los de qualquer maneira e os que eu gosto, acabo indo ao cinema depois de qualquer jeito — conta o estudante.

Haroldo questiona também a facilidade que os espectadores tem para assistir aos produtos não comprados legalmente, tendo a disposição aparelhos de DVDs que tocam vários tipos de arquivos, além de lerem legendas, e os próprios discos originais serem fáceis de serem copiados. “Os órgãos que controlam a pirataria não deveriam inibir o avanço desses produtos que funcionam em prol da pirataria?” indaga ele, ainda afirmando que seu último aparelho de DVD foi comprado com a única função de tocar esses arquivos recebidos da internet.

Nos Estados Unidos a questão está mais avançada, e cada vez mais a internet está participando dos planos de empresas. Elas conseguiram ver o mecanismo como fonte de lucros, e já vendem músicas avulsas por preços muito mais baratos, além de ir aos poucos pondo em extinção a noção de locadoras de filmes como locais físicos. Cada vez mais os americanos escolhem os filmes que querem assistir através da internet, recebendo o filme, com o consumidor escolhendo os filmes pela internet e recebendo em poucos dias na sua casa.

Aos poucos, vão se contornando os problemas que a pirataria traz, e quem ganha é o público, com mais opções ao seu dispor. Hoje vivemos tão dependentes da internet e seus benefícios, que já nos acostumamos a ter a disposição inúmeros filmes que não estarão disponíveis no Brasil (ainda mais para os que não moram em grandes metrópoles), ou as séries na mesma noite em que elas são exibidas nos EUA. Com tudo isso, é difícil defender as grandes empresas que estão perdendo uma pequena porcentagem de seus enormes lucros. Mas também, se podemos conseguir o material “ilegal” de graça, por que pagar por ele?

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